Overdenture superior x inferior: implantes e diferenças
Resposta rápida: a overdenture inferior (mandíbula) é considerada tratamento de primeira escolha para quem não tem dentes embaixo e costuma funcionar bem com 2 implantes, conforme os consensos de McGill (2002) e York (2009). A superior (maxila) tem osso menos denso e reabsorve de forma diferente, por isso a literatura recomenda em geral 4 implantes. Com 4 ou mais implantes bem distribuídos, muitas vezes é possível remover a cobertura do palato. Na prática, a prótese de baixo é a que mais incomoda, e é por ela que a maioria dos tratamentos começa.
Duas arcadas, dois problemas diferentes
Quem usa dentadura completa em cima e embaixo geralmente descreve a mesma coisa: a de cima "fica", a de baixo "não para". Isso não é impressão. A dentadura superior cobre o palato inteiro e cria um vedamento com a saliva, parecido com uma ventosa. A inferior tem formato de ferradura, divide espaço com a língua e se apoia num rebordo que costuma ser estreito. Não há como fazer ventosa ali.
Essa diferença explica por que o tratamento com implantes é planejado de forma distinta em cada arcada. O objetivo é o mesmo, dar estabilidade à prótese, mas o ponto de partida muda bastante. Se você ainda não conhece o conceito, vale começar pelo guia de como funciona a overdenture.
Por que a overdenture inferior com 2 implantes virou padrão
Em 2002, um grupo de pesquisadores reunidos na Universidade McGill, no Canadá, publicou uma declaração que mudou a prótese total: para adultos sem dentes na mandíbula, a overdenture retida por dois implantes deveria ser o padrão mínimo de tratamento, e não mais a dentadura convencional. Em 2009, o Consenso de York, no Reino Unido, reforçou a mesma conclusão.
A base dessa recomendação são estudos que compararam satisfação, capacidade de mastigar e qualidade de vida entre usuários de dentadura e de overdenture inferior. A diferença a favor da overdenture foi consistente. Os implantes costumam ser colocados na região anterior da mandíbula, entre os forames mentuais, onde o osso tende a ser mais denso e há menos estruturas delicadas no caminho.
Dois implantes não são regra rígida. Três ou quatro podem ser indicados quando o osso é muito fino, quando o paciente tem força de mordida alta ou quando se quer mais estabilidade. Mas dois é o número que a evidência sustenta como ponto de partida, e é o que torna a overdenture inferior acessível para muita gente.
O osso da maxila é outro
A maxila tem um osso mais esponjoso e menos denso, principalmente na região de trás. Na classificação de Lekholm e Zarb, muito usada no planejamento de implantes, a maxila posterior aparece com frequência nos tipos III e IV, os de menor densidade. Implantes em osso menos denso têm, em média, um pouco menos de estabilidade inicial.
A forma como o osso encolhe também é diferente. Sem dentes, a maxila reabsorve "para dentro e para cima", ficando mais estreita. A mandíbula reabsorve "para baixo e para fora". Com o tempo, a arcada de cima fica menor que a de baixo, o que complica a posição dos dentes artificiais e o espaço disponível para implantes.
Há ainda o seio maxilar, uma cavidade de ar logo acima dos dentes posteriores de cima. Em quem perdeu os dentes há muitos anos, ele tende a se expandir e sobra pouca altura de osso. Nesses casos, pode ser preciso um enxerto (levantamento de seio) ou planejar os implantes só na parte da frente. A tomografia é o que define isso, como explicamos no guia de planejamento cirúrgico e osseointegração.
Quantos implantes na overdenture superior
Revisões sistemáticas que compararam overdentures superiores com diferentes números de implantes chegaram a uma recomendação prática: quatro implantes é o número mais seguro para a maxila, enquanto dois costumam bastar na mandíbula (Raghoebar et al., 2014). Com menos de quatro implantes na maxila, as taxas de perda de implante relatadas foram maiores.
A forma de unir esses implantes à prótese também entra na decisão. Na maxila, as barras que ligam os implantes entre si eram tradicionalmente preferidas, porque distribuem a força. Hoje, encaixes individuais do tipo Locator também são usados com bons resultados quando os implantes estão bem posicionados e paralelos. Os prós e contras de cada sistema estão no guia de sistemas de encaixe.
Dá para tirar o "céu da boca" da prótese?
Essa é uma das perguntas mais comuns de quem usa dentadura superior. A cobertura do palato atrapalha o paladar, a sensação de temperatura dos alimentos e, em algumas pessoas, provoca ânsia de vômito.
Com quatro ou mais implantes bem distribuídos, a overdenture superior pode ser feita em formato de ferradura, sem cobrir o palato, porque a retenção passa a vir dos implantes e não mais do vedamento. Com dois implantes na maxila, a prótese geralmente continua precisando do palato para ter estabilidade.
Vale saber: tirar o palato reduz a área de apoio da prótese, e parte da força da mastigação passa para os implantes. Por isso essa decisão depende da qualidade do osso, do número de implantes e do tipo de encaixe. Não é um detalhe estético que se escolhe no final.
Comparativo: superior x inferior
| Critério | Overdenture inferior | Overdenture superior |
|---|---|---|
| Número de implantes mais citado | 2 (padrão pelos consensos de McGill e York) | 4 (recomendação de revisões sistemáticas) |
| Qualidade óssea típica | Mais densa na região anterior | Menos densa, sobretudo na região posterior |
| Necessidade de enxerto | Menos frequente | Mais frequente (seio maxilar, rebordo fino) |
| Cobertura do palato | Não se aplica | Pode ser removida com 4 ou mais implantes |
| Ganho percebido pelo paciente | Muito alto: a dentadura inferior é a que mais solta | Variável: muita gente já se adapta bem à dentadura superior |
Qual arcada tratar primeiro
Para a maioria dos pacientes sem dentes nas duas arcadas, a combinação mais comum é dentadura convencional em cima e overdenture embaixo. A dentadura superior, quando bem feita, tende a ter retenção aceitável. A inferior é a que causa as queixas, e dois implantes resolvem grande parte do problema.
A overdenture superior entra em cena quando a dentadura de cima também não para: rebordo muito reabsorvido, palato raso, ânsia de vômito que impede o uso, ou quando o paciente quer remover o palato. Também é considerada quando a pessoa tem condições de fazer as duas arcadas e quer o máximo de estabilidade.
Há um cuidado que o dentista costuma avaliar nessa combinação. Quando a região da frente de baixo fica muito firme, por implantes ou dentes naturais, e a de cima é uma dentadura comum, a força da mordida pode se concentrar na frente da maxila e acelerar a reabsorção ali. Esse quadro foi descrito por Kelly em 1972 e ainda é discutido na literatura. Consultas de controle e reembasamentos quando necessários ajudam a evitar esse desgaste.
Para comparar a overdenture com as outras opções, veja overdenture x protocolo x dentadura.
Referências
- Feine JS, et al. The McGill consensus statement on overdentures. Gerodontology. 2002.
- Thomason JM, et al. Mandibular two implant-supported overdentures as the first choice standard of care for edentulous patients — the York Consensus Statement. Br Dent J. 2009.
- Raghoebar GM, et al. A systematic review of implant-supported overdentures in the edentulous maxilla, compared to the mandible: how many implants? Eur J Oral Implantol. 2014.
- Kelly E. Changes caused by a mandibular removable partial denture opposing a maxillary complete denture. J Prosthet Dent. 1972.
Equipe Editorial — Overdenture.com.br
Conteúdo estruturado com base em evidências científicas — incluindo os Consensos de McGill (2002) e York (2009), estudos do International Journal of Prosthodontics e protocolos do Conselho Federal de Odontologia (CFO). Revisado por cirurgiões-dentistas parceiros antes da publicação.
Revisor responsável: Dr. Fabio Zalli — CRO-SP 98712